17 de novembro de 2014

Reinventar


Depois que acabou o tratamento eu simplesmente precisei de um tempo… Um tempo longe de tudo que me lembrava câncer, de tudo que lembrava que essa doença terrível existia. As coisas ficam difíceis e bem confusas, ao mesmo tempo que é um alívio imensurável ter chegado ao fim.Você se acostuma a ser forte e quando tudo isso cessa você se sente perdido,por não saber mais simplesmente viver sem ter que lutar, sem enfrentar seus medos.
A semana de exames foi uma tortura. Eu simplesmente detesto fazê-los, sempre fico muito nervosa até saber todos os resultados e até saber que está tudo bem. Cada exame remete a muitas lembranças, medos, inseguranças, sensações desagradáveis e nos coloca numa situação de estresse muito grande. Assim como as consultas.
Depois de muito postergar, finalmente fui à consulta com minha oncologista. Estava tudo bem até chegar na clínica. Além de ser um ambiente que eu obviamente não gosto, foi difícil ver outros pacientes ainda em tratamento, em especial uma, que chegou quando eu estava na sala de espera. Ela chegou com muita dificuldade, muita dor. O sofrimento dela estava estampado em sua cara. Imediatamente eu me lembrei de diversas situações em que eu estive assim. Não tem nada pior que sentir-se mal e não tem nada melhor do que sentir-se bem. Parece óbvio, mas não é. Na verdade só cheguei a essa conclusão depois de diversas vezes passar muito mal e, assim então, pude realmente apreciar a sensação de simplesmente estar bem.
Ela ainda estava em tratamento. Assim que ela chegou, em apenas alguns segundos eu percebi que tratava-se de alguém em quimioterapia: rosto inchado e amarelado, olheiras profundas, peruca na cabeça, fraqueza nas pernas, músculos atrofiados, os olhos sem brilho. Eu me vi nela. Estava assim pouco tempo atrás. As lágrimas começaram a sair sem que eu pudesse fazer qualquer coisa para evitar. E eu nem quis evitar. Eu fiquei péssima. E por alguns instantes eu chorei. Chorei a dor daquela menina, que é como se fosse a minha. Chorei a dor de quem estava acompanhando, chorei a dor de todas as pessoas que passam por isso. Chorei o fato de existir uma doença que acaba com a vitalidade da pessoa aos poucos, chorei o fato do tratamento ser tão sacrificante. Chorei por não compreender o por quê.
Por que simplesmente não aparece um caminhão um dia e nos atropela? Por que ter que passar por tudo isso? Essa espera é cruel, o tempo passa devagar, a vida congela, o coração está constantemente acelerado, já não se sabe o que é estar em paz. Qualquer barulho de telefone tocando é um susto. A sensação de quando estamos mal é a de que aquilo nunca vai passar. Eu quase não conseguia acreditar que eu me sentia tão mal, tão fraca, e ainda assim continuava ali.
Foi aí então que eu me dei conta de algo que eu já sabia mas não tinha entendido de fato. Existem sempre dois caminhos. Sempre. A vida nos oferece sempre dois caminhos. A morte também. Ou se morre ou se vive. Ou aceitamos ou nos revoltamos. Ou sorrimos ou choramos. Ou acreditamos ou não acreditamos. Ou temos fé ou não temos. Ou lutamos ou nos entregamos. Ou procuramos sempre o lado bom ou focamos no lado ruim. Ou nosso copo está meio cheio ou está meio vazio. Eu comecei a entender que a vida nos presenteia. Um presente surpresa, que vem sem cartão e sem pacote dourado, mas é inesperado e pode ser o melhor presente da sua vida se você souber o que está ganhando.
Ou você está ganhando ou você acha que está perdendo. Poderia citar inúmeras coisas que perdemos com o câncer. Uma articulação, os cabelos, a turma da faculdade, viagens, festas, praia, caminhadas ao ar livre, mente despreocupada, a boa forma, energia, disposição, bem estar, auto estima, riso frouxo. Isso é fácil, todos sabem, qualquer um vê. É imediato. O que demora e, nem sempre é visto, é o que saímos ganhando. Uma mente que se abre a uma nova ideia nunca mais retorna ao seu tamanho original… É mais ou menos por aí.
Como se você fosse a uma festa, onde estão todos seus amigos e conhecidos, e todos bêbados. Rindo, dançando, conversando, falando besteiras, promessas vazias, risadas exageradas, tropeçando no chão e vomitando no banheiro. Mas você está sóbrio. Com um olhar completamente sóbrio perante tudo aquilo. E daí então você observa, sob outra perspectiva, tudo que acontece ao seu redor. E tem sempre muitas coisas acontecendo, é só observar. E é assim que começamos a observar a vida. Como se antes eu estivesse embriagada, fazendo parte daquilo e deixando-me levar pela maré, e, como todo bêbado, achando que estava bem. E você só se dá conta de que não estava bem no dia seguinte. E esse dia seguinte são todos os dias. Dias de ressaca. A pior ressaca de todas. E também de muitos pensamentos, muita solidão, muita reflexão. E então, em algum momento no meio dessa bagunça que virou sua vida, você percebe que só tem dois caminhos: revolta ou aceitação. Auto piedade ou auto conhecimento. Depressão ou reflexão. E então vc percebe que estava trilhando um caminho que não ia levar ao melhor destino, na verdade eu estava me tornando alguém que eu não quero ser. E então eu percebi a chance que eu tinha recebido. A oportunidade rara e única que é essa experiência. Uma experiência muito sacrificante mas também muito rica. Quiçá a mais rica de todas que terei na vida. E aí você decide o que quer fazer com isso. Dois caminhos: ou guardamos todo o nosso aprendizado na memória, ou evoluímos realmente a partir disso. Evoluir não é somente mudar a visão sobre as coisas ou abrir a cabeça. Evoluir é colocar em prática. E isso é o mais difícil. Mudar algumas escolhas, mudar a direção da caminhada. Não somente para ser uma pessoa melhor, mas também para fazer melhor a vida de outras pessoas.
E isso não acontece somente com o câncer. Acontece todos os dias. Uma separação, um filho que morre, um marido que trai, uma demissão em um emprego, uma doença, um acidente de carro, um sequestro, um assalto. Um bom livro, um bom filme, uma briga. Temos sempre dois caminhos. Temos sempre o livre arbítrio.  Temos todos os dias a opção de mudar, de se readaptar, de nos reinventarmos. Temos todos os dias a chance de nascer de novo. De jogar fora todo o lixo mental que vem sendo depositado em nossas mentes há anos. De nos livrarmos de mágoas, apegos, ideias erradas sobre nós mesmos. De nos livrarmos de velhos hábitos, de vícios, de preconceitos. Temos todos os dias a capacidade de recomeçar do zero.
Num dia a dor parece infinita e parece consumir tudo que ainda pulsa dentro de nós. No outro, encontramos alguma razão pra continuar, alguma força que nem sabemos ao certo daonde vem, no outro dia estamos de pé novamente.
Eu entrei na minha consulta chorando e saí sorrindo. Em alguns minutos eu caí e me reergui. O coração dói e depois volta a vibrar. Felizmente está tudo bem comigo, estou voltando à vida normal aos poucos.
A vida só é possível reinventada. E teremos sempre dois caminhos.
Texto adaptado. O original é do blog Tumor com humor 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adolescentes Superam © 2014 . POWERED BY BLOGGER . ILLUSTRATION BY BELL MITYSHU . THEME BY LALONITA e LARISSA BÉS